A Joaninha e a Abelha – versão revista com final diferente

Nova versão, revista e, espero, melhorada, do conto da Joaninha e da Abelha. Os contos podem ser como as canções e ter novas versões

A importância das histórias infantis é incomensurável. Delas dependerá o gosto pela leitura e a criação de imaginários. Nós precisamos de histórias. Não sei se esta é boa. Deixem os vossos filhos ou sobrinhos ajuizar por si.

Mário Rui de Melo

 

A joaninha e a abelha

 

A joaninha voou por cima da abelha e pousou na flor.

“Amiga abelha, diga-me: esta flor é doce?”

” A joaninha que a prove para saber”.

“A abelha é que é a especialista. Não me diga que não sabe?”

“Sei. Essa flor chama-se malmequer e só é doce quando bem me quer. Por isso é que lhe digo: Prove-a”.

“Acho que não vou provar. E se ela não me quiser bem?”

” Só amarga um bocadinho. Arrisque. Vai ver que vale a pena”.

“Não, agora não”.

“Para onde é que a joaninha voa?

“Para o meu pai que está em Lisboa”.

“E o seu pai não lhe ensinou que a vida é feita de doces e de amargos?”

“O meu pai só me quer dar uma vida doce, sem amargos?

“A minha amiga joaninha não sabe que até a flor mais bonita, que é a rosa, tem espinhos?”

“Sei. O meu pai explicou-me que a rosa vermelha é o símbolo do amor porque tem espinhos”.

“O seu pai disse-lhe isso? Que o amor tem espinhos? Ah! Essa é uma grande verdade. Mas que é a vida sem amor?”.

“A amiga abelha evita as rosas, não evita?”

“Não, porque é que haveria de evitar? Há lá coisa mais linda!!”

“Mas tem espinhos e os espinhos magoam e fazem sofrer”.

“Quando se ama, doce é o sofrer, minha joaninha”.

“Não percebo. Doce é o mel que a amiga faz. Não o sofrimento de amor”.

“Ó minha amiga, linda como é, com essas pintas pretas sobre o corpo vermelho, a minha amiga já fez sofrer de amor”.

“Eu!!?”

“Sim, minha querida joaninha. Quando viu as mãos das crianças aproximarem-se para a apanhar, porque a achavam linda, voou para longe. Não foi?”.

“As crianças iam fazer-me mal”.

“Como sabe? Na maior parte dos casos, queriam vê-la e amá-la. As crianças começam a amar a natureza, porque a amam a si, às suas pintas e às suas cores e porque estamos na primavera”.

“Sério? Elas gostam de mim?”

“Ah! A joaninha não sabe que é o símbolo da Primavera, estação da vida que emerge da terra e da beleza animal que está na natureza?”

“Não sabia”.

“É. Graças a si, muitos homens aprenderam a amar a natureza e a respeitar-nos”.

“Porquê eu?”

“Ora, porque é pequenina, porque surge na primavera, a mais linda das estações, com todas as suas flores e porque é bonita e toda a gente sabe que é incapaz de fazer mal a alguém”.

“Só isso?”

“Não. Falta o mais importante. Porque voa. Voar simboliza a liberdade e isso é muito importante para os homens”.

“Acho que, afinal, vou provar o malmequer”.

“Oh! Minha joaninha, faça isso.

A joaninha, hesitante, lá acaba a provar o centro amarelo da flor.

“Então que tal?”

“É doce como o mel do amor”.

“Viu? Eu não tinha razão? Ela bem te quer”.

“Ó minha boa abelha, não era bom que nós fossemos muitas, muitas e muitas joaninhas?”.

“Não sei. Porquê?”.

“Porque assim, havia mais crianças a apanharem-nos e os homens passavam a gostar mais da natureza”.

“O pior era se elas tentassem apanhar-nos a nós abelhas”.

“Porquê?”

“Porque nós picamos quem nos toca”.

“Ora, então não me disse há bocado que as crianças…”

“Disse. Mas, nós abelhas, temos muito medo e defendemo-nos antes de saber se vão ou não fazer-nos mal”.

“Que disparate! Olha, vem ali uma criança. Vou deixar que ela me toque”.

“É às joaninhas que cabe o sacrifício de saber se as crianças nos querem bem ou mal. Boa sorte”.

A joaninha voou para cima de uma rosa branca e, espantosamente bela no seu vermelho e preto em cima da pétala branca, deixou-se estar muito quieta.

O menino aproximou-se, fez uma cara de espanto e admiração, aproximou as mãos e apertou a joaninha entre os seus dedos. A força foi tal que a joaninha caiu morta entre as pétalas da flor. O menino fez um “ooohhh” de pena e foi-se embora.

A abelha viu tudo e foi até à rosa e, por entre as suas lágrimas, viu a rosa tingir-se de vermelho, como se houvesse sangue na joaninha capaz de tal milagre. O amor da joaninha transformou aquela flor na mais linda rosa vermelha do jardim.

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Conto 7 – Gato e rato, amigos para a vida

Escrever histórias para crianças é tarefa difícil. Se nos tentarmos colocar no lugar deles, a coisa fica idiota, porque achamos sempre que eles sabem menos do que na verdade sabem e entendem menos do que na verdade entendem. O grande desafio é a simplicidade, que não é a mesma coisa de facilidade. Ser simples, é difícil.

Mário Rui de Melo

Gato e rato, amigos para a vida

“Pssst! Pssst! Ei, tu aí, gatinho malhado”.

O gato olhou para todos os lados para ver quem o chamava e não via nada. Era uma rua velha e cheia de buracos, onde quase não passava ninguém.

“Estou aqui em baixo, ao pé do buraco. Isso!”.

” Mas, tu és um rato… olha-me só o atrevimento! Que me queres rato atrevido?

“Queria-te só perguntar se podemos ser amigos?”

“Deves estar a brincar. Amigos? Nós? Então não sabes que nos fizeram desde sempre inimigos? A mim cabe-me apanhar-te e dar aos meus donos como presente.”

“Ora, tu não tens donos que eu bem te vejo aí aos caixotes do lixo”.

“Não tenho, mas posso vir a ter e eles não iam gostar de saber que tenho um rato como amigo”.

“E quem foi que te disse que eles precisam de saber disso?”

“Ah!… Pois… ninguém. Mas, é assim que funciona”.

“Não é nada. Os gatos caçam para comer, mas tu nem isso sabes fazer ou achas que eu não te tenho visto para aí a rondar?”.

“Posso-te caçar a ti”.

” Não, não podes, eu sempre fui um rato de rua, conheço todas as manhas e esconderijos da cidade. Tu já tiveste donos, comida no prato a horas certas e colinho. Não fazes a mínima ideia de como é isso de caçar”.

“Aprendo depressa. Está-me na natureza”.

“Eu sei, mas isso não impede que sejamos amigos”.

“Impede, sim senhor”.

O gato virou costas e, altivo, foi caminhando na rua. O rato virou-se e tirou um queijo de uma pequena caixa atrás de si. Acenou o pedaço de queijo por forma a que o seu cheiro chegasse ao nariz do felino. Este virou-se e o rato fingiu que o comia, deliciado.

“Olha lá, isso é queijo?”.

“Do melhor que há”.

“Onde o arranjaste?”

“Isso são informações que só se dão aos amigos e, que eu saiba, tu não o és”.

“Mas, posso ser”.

“Prova-o”.

“Como? Tens alguma ideia?”.

“Não”.

Ficaram os dois a pensar como é que se podia provar a amizade, até que o rato pegou no queijo e estendeu-o ao gato.

“Toma lá. Eu tenho mais. Não precisamos de ser amigos. Tchau”.

O gato recebeu a prenda e devorou-a imediatamente. Tinha fome. Para um rato podia ser uma enorme quantidade de queijo mas não para um gato.

“Espera, não te vás embora”.

“Não tenho mais queijo, se é isso que queres”.

“Não, não é isso. É que… vemo-nos outra vez por aí?”

O rato ficou a pensar.

” Sim, vemo-nos por aí, claro”. E virou costas.

O gato ficou a vê-lo a afastar-se, com pena. Desde que fora abandonado pelos donos que o rato tinha sido o único dos habitantes da rua que queria ser seu amigo. Nem os gatos vadios toleravam a sua presença. E pensou que não se podiam desperdiçar assim os amigos. Eles já são tão poucos…

De repente, o rato passa a correr à sua frente e ouve-o gritar:

“Foge amigo, foge, que estes gatos são selvagens e maus”.

Atrás dele vinham dois gatarrões enormes, com grandes cabeças, a toda a velocidade. O gato caseiro, ex-mimado pelos donos, habituado a sofás e não a lutar pela vida, postou-se à frente dos matulões e disse:

“Alto aí! Onde é que pensam que vão?”.

Os dois gatos de rua pararam, mudos de espanto. Como é que aquele mariquinhas se atrevia a intrometer-se?

“Ouve lá, ó marquês, o melhor é pores-te a milhas. Isto não é nada contigo”.

“Ouçam lá, ó rafeiros, o melhor é deixarem o meu amigo em paz ou vão saber o que um marquês sabe fazer”. Inchou o peito e olhou-os nos olhos.

“Tu não está bom da cabeça. Levas duas patadas e vais parar ao rio. Sai lá da frente”, disse o outro gato, grande e de pelo maltratado.

“Vocês não sabem com quem é que se estão a meter. Fui posto na rua pelos meus donos porque dei cabo dos três cães de guarda que eles tinham. Não me dêem pretextos para vos magoar. Pirem-se”.

Os outros gatos hesitaram. Olharam de lado para o seu opositor e, por fim, disseram:

“Bom, hoje fica assim. Nem me estava a apetecer rato para o almoço. Vamos”. Viraram costas e foram-se embora.

O rato aproximou-se logo.

“É verdade que deste cabo de três cães?”.

“Não. Teria sido um belo sarilho se eles não têm acreditado nisso”.

“Eu conheço aqueles dois. São as feras cá da rua. São eles que mandam nos outros gatos e tu afugentaste-os”.

“Ora, não foi nada. Não é para isso que servem os amigos?”.

“É. Se aparecerem para aí umas ratazanas com más intenções, conta comigo”. Riu-se e começou a andar ao lado do gato, ele grande, ele pequenino, lado a lado.

” Vamos lá a esse queijinho, amigo”, disse o rato abanando a a cauda ao mesmo ritmo da do gato.

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A joaninha e a abelha

A importância das histórias infantis é incomensurável. Delas dependerá o gosto pela leitura e a criação de imaginários. Nós precisamos de histórias. Não sei se esta é boa. Deixem os vossos filhos ou sobrinhos ajuizar por si.

Mário Rui de Melo

 

A joaninha e a abelha

 

A joaninha voou por cima da abelha e pousou na flor.

“Amiga abelha, diga-me: esta flor é doce?”

” A joaninha que a prove para saber”.

“A abelha é que é a especialista. Não me diga que não sabe?”

“Sei. Essa flor chama-se malmequer e só é doce quando bem me quer. Por isso é que lhe digo: Prove-a”.

“Acho que não vou provar. E se ela não me quiser bem?”

” Só amarga um bocadinho. Arrisque. Vai ver que vale a pena”.

“Não, agora não”.

“Para onde a joaninha voa?

“Para o meu pai que está em Lisboa”.

“E o seu pai não lhe ensinou que a vida é feita de doces e de amargos?”

“O meu pai só me quer dar uma vida doce, sem amargos?

“A minha amiga joaninha não sabe que até a flor mais bonita, que é a rosa, tem espinhos?”

“Sei. O meu pai explicou-me que a rosa vermelha é o símbolo do amor porque tem espinhos”.

“O seu pai disse-lhe isso? Que o amor tem espinhos? Ah! Essa é uma grande verdade. Mas que é a vida sem amor?”.

“A amiga abelha evita as rosas, não evita?”

“Não, porque é que haveria de evitar? Há lá coisa mais linda!!”

“Mas tem espinhos e os espinhos fazem sofrer”.

“Quando se ama, doce é o sofrer, minha joaninha”.

“Não percebo. Doce é o mel que a amiga faz. Não o sofrimento de amor”.

“Ó minha amiga, linda como é, com essas pintas brancas sobre o corpo vermelho, a minha amiga já fez sofrer de amor”.

“Eu?”

“Sim, minha querida joaninha. Quando viu as mãos das crianças aproximarem-se para a apanhar, porque a achavam linda, voou para longe. Não foi?”.

“As crianças iam fazer-me mal”.

“Como sabe? Na maior parte dos casos, queriam vê-la e amá-la. As crianças começam a amar a natureza, porque a amam a si, às suas pintas e às suas cores e porque estamos na primavera”.

“Sério? Elas gostam de mim?”

“Ah! A joaninha não sabe que é o símbolo da beleza animal que está na natureza?”

“Não sabia”.

“É. Graças a si muitos homens aprenderam a amar a natureza e a respeitar-nos”.

“Porquê eu?”

“Ora, porque é pequenina, porque surge na primavera, a mais linda das estações, com todas as suas flores e porque é bonita e toda a gente sabe que é incapaz de fazer mal a alguém”.

“Só isso?”

“Não. Falta o mais importante. Porque voa. Voar simboliza a liberdade e isso é muito importante para os homens”.

“Acho que, afinal, vou provar o malmequer”.

“Oh! Minha joaninha, faça isso… então que tal?”

“É doce como o mel do amor”.

“Viu? Eu não tinha razão? Ela bem te quer”.

“Ó minha boa abelha, não era bom que nós fossemos muitas, muitas e muitas joaninhas?”.

“Não sei. Porquê?”.

“Porque assim, havia mais crianças a apanharem-nos e os homens passavam a gostar mais da natureza”.

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Conto 5 – O acidente

Aos contos deste canto das cigarras interessam-lhe sobretudo as vidas banais expostas a acontecimentos banais. Nem personagens extraordinárias sujeitas a acontecimentos extraordinários, nem personagens vulgares colocadas perante invulgares situações que exijam acções extremas. Nada disso. Interessa-nos a vida na sua simplicidade. Não nos reconhecemos aqui, mas reconhecemos os nossos vizinhos no esplendor da sua banalidade. Nós nunca nos reconheceríamos como gente banal. Certo?

Mário Rui de Melo


O ACIDENTE 

Acelerou a fundo. Fazia sempre aquilo naquele troço da estrada municipal que ligava a vila à aldeia onde tinha a sua casa, suficientemente afastada para a manter longe dos olhares dos aldeãos. O carro, um topo de gama de alta cilindrada, galgava quilómetros deixando um rasto de pó. Tinha a mania dos rallys, piloto frustrado que nunca tinha conseguido passar das primeiras classificativas, acabando por desistir.

Como de costume, passou por uma casa pequena, de ar pobre, mas asseado, árvores de fruta e horta a pincelar de verde um quintal de muros baixos. Também como habitualmente, o velho ergueu-se acima do muro, fazendo um gesto de indignação, pela poeirada e pela velocidade. Já era um ritual. Riu-se deste pequeno episódio que se repetia de todas as vezes que vinha passar uns dias ao campo. Olhou para a companheira, uma jovem esbelta com o olhar distante e frio, para ver se ela partilhava esta pequena malandrice que ele entendia como os miúdos entendem a brincadeira do toca e foge das campainhas. Mas, ela seguia impávida, completamente indiferente.

Chegou a uma casa de muros altos e brancos, imponente. Ainda o carro se aproximava e já o portão metálico deslizava suavemente sobre um carril, deixando ver um caminho de 50 metros, em cascalho fino, até à garagem.

A casa situava-se num alto. À volta, uma paisagem campestre, pontuada por pequenos montes, de grande beleza.

Saiu do carro e respirou fundo. Gostava de ir ali. Gostava da casa, dos cheiros, das refeições preparadas pelos caseiros, do banho de piscina, que era aquecida no Inverno e dos momentos de descontracção e calma. Escolhera o sítio porque considerava a vista estupenda e porque nenhum conhecido seu tinha casa ali perto. Aquele era um refúgio para seu sossego e não local de convívios e festas.

Só havia um senão. A sua jovem mulher não gostava daqueles retiros. Um fim-de-semana ainda aguentava. Mais tempo e o mau génio vinha ao de cima. Já sabia de que têmpera ela era feita. Nessas alturas, tentava lembrar-se do que o atraíra nela. A beleza, claro. A juventude também. Mas, sobretudo uma alegria de que ela agora raramente dava mostras. Tinham tido bons momentos, momentos de partilha, de alegria e de afectos.

“Respira-me este ar Evelise”, disse ele, enchendo os pulmões. Ela olhou-o como se ele tivesse acabado de dizer uma parvoíce.

Ela entrou directamente em casa e desapareceu. Ele ficou parado, a olhar. O caramanchão, próximo à piscina, estava com as trepadeiras bem vivas e verdes. A sombra parecia-lhe francamente apetecível.

O caseiro apareceu, ainda a secar as mãos nas calças de caqui. Andara nas jardinagens.

“Posso ajudar a levar as coisas, sr. Eduardo?”.

” Sim, claro, João. São só duas maletas”. Gostava dele. Era um homem franco e aberto, nada subserviente, o que lhe dava garantias de honestidade. A esposa era uma mulher forte, trigueira, a emanar energia e vitalidade, com uma mão para a cozinha tradicional quase insuperável. O problema era aquela sua mania das decorações, que irritava Evelise, sempre que encontrava a casa modificada, com os bibelots trocados de sítio e arranjos florais de gosto duvidoso.

Eduardo tinha 43 anos, herdara do pai uma fábrica de moldes de plástico que internacionalizara. Tinha jeito para o negócio e enriquecera rapidamente, a partir da semente deixada pela família. Casara tarde e apenas porque não resistira à beleza de Evelise. Filho único de pais que já não eram novos quando o tiveram, rapidamente viu a sua família confinada a uns tios e primos. Ninguém muito chegado. Ainda assim, um dos dois tios que sobravam disse-lhe, após ver Evelise, que ele fazia um disparate. “Demasiado bonita, demasiado jovem, demasiados problemas”, resumiu.

Entrou em casa e viu logo o que ia ser um foco de tensão. A habitual jarra para os ramalhetes de flores estava agora plantada em cima do móvel da entrada, exibindo as cores garridas de uma mescla de jarros, rosas e margaridas. O seu lugar habitual era a sala de estar. Ignorou o facto e foi directo para a cozinha. Encontrou a D. Rosalinda às voltas com o forno. Cheirava bem.

“Boa tarde Rosalinda.” A mulher endireitou-se, depois de fechar o forno.

“Boa tarde, sr. Eduardo. Estou aqui a preparar uma carne assada para o jantar.” Olhou-o com um sorriso franco. ” A D. Evelise não veio?”

“Veio sim, deve ter ido ao quarto, não tarda está aí”.

“Ah! É que eu sei que ela gosta das batatinhas coradas…” Ela esforçava-se por agradar a Evelise. Sentia da parte dela uma frieza distante que não ia com o seu feitio aberto e emotivo. Já com ele, apesar de não ser assim tão mais novo que ela, tratava-o como a um filho. Eduardo não sabia porque é que aquele casal, aparentemente feliz na sua simplicidade, não tivera descendentes. Foi coisa que nunca lhes perguntara nem o ia fazer. Cada um sabia de si e calculava que a resposta fosse dolorosa para ambos. O certo é que, agora, ele sentia que eles faziam parte da sua vida, o que não é a mesma coisa que ser da família e calculava que eles pensassem o mesmo.

Evelise não aparecia. Foi ao quarto e deu com ela a remirar o guarda-fatos.

“Isto não está nada como eu deixei”, afirmou assim que o sentiu entrar.

“Já sabes que a Rosalinda gosta de arrumações”, proferiu em tom conciliador.

“Porque é que ela não vai antes arrumar a casa dela?” O tom, quase irado, não estava a prenunciar bom ambiente.

“Oh! Querida, que importância é que isso tem? Estar assim ou assado não é mesma coisa?”. Proferiu isto e sentiu logo que tinha cometido uma asneira. Não devia ter menorizado o problema.

“Não, não é a mesma coisa. Talvez seja para ti, mas para mim não é. Para mim é falta de respeito”.

Ele aproximou-se e pôs-lhe o braço no ombro. “Sabes? Tens de te descontrair. Ela faz isso para tentar agradar. A nós resta-nos aproveitar o tempo para relaxar e estar juntos”.

“E a jarra na entrada? Viste a jarra na entrada?”. Ele já esperava por esta.

“Vi. Queres que lhe diga para a pôr onde estava?”. Ela tirou-lhe o braço de cima.

“Não. Quero que lhe digas para não mexer em nada”.

“Isso, eu não posso fazer. O trabalho dela é esse, mexer para limpar”.

“Então livra-te dela e contrata outra”.

“O quê?”, mas ela já saíra para a casa de banho. Deixou-se cair na cama. Que raio de feitio! Fechou os olhos. Começara a achar que o fim-de-semana estava definitivamente envenenado. Sentiu água a correr na casa de banho contígua ao quarto e presumiu que ela estava no banho. Talvez acalmasse as coisas. Voltou à rua, a tempo de ver o sr. João arrumar a tralha da jardinagem. Estava aquele azul que às vezes se põe quando o sol desaparece no horizonte.

“Ó João, diga-me uma coisa…”, mas logo se arrependeu de ter iniciado a pergunta.

“Desculpe, não percebi. Disse alguma coisa?” Ainda bem que ele, entretido nos seus afazeres, não entendera o que dissera, o que lhe deu oportunidade para corrigir. “Dizia que este ano temos um caramanchão a sério”. O outro anuiu, sem deixar o que estava a fazer. Eduardo olhava-o e deu consigo a pensar que nunca tinha visto um gesto de demonstração de afecto entre ele e Rosalinda, embora lhe parecesse que eles formavam um casal feliz. Havia neles uma harmonia que não era fácil de encontrar. Era qualquer coisa que existe e pronto. Não se força, nem se pensa nisso e as coisas fluem naturalmente. Talvez eles tivessem encontrado a sua alma gémea. Sorriu a este pensamento, porque lhe vieram à lembrança as telenovelas que Rosalinda gostava de ver.

Tornou a entrar em casa. Ainda tinha esperança em conseguir acalmar Evelise. Entrou no quarto quando ela saía da casa de banho em roupão e toalha enrolada na cabeça. “Meu Deus, como é bonita”, pensou Eduardo.

“Sabes, está uma noite tão fantástica que eu pensei que podíamos jantar lá fora. Púnhamos umas luzes especiais e… bom, era bestial.” Ela manteve-se silenciosa, enquanto escolhia a roupa para vestir.

” A Rosalinda está a fazer aquela carne assada dela com batatas coradas, exactamente como tu gostas. Que tal?” Silêncio. Escolhia a camisola como se fosse para uma festa de cerimónia. Ele calou-se. Estava para sair, quando deixou mais uma deixa: “vou tratar já disso”.

“Não trates”. A resposta veio seca como um disparo de fulminantes. A bala a sério viria depois. “Vou sair. Regresso a Lisboa. Podes ficar cá com a tua carne assada”.

Ficou sem resposta. Não esperava aquilo. Hesitou entre iniciar ali uma discussão séria ou simplesmente manifestar indiferença. “Meu Deus, como ela é bonita!”. Mas onde estava aquela alegria contagiante que o conquistara em definitivo?

“Faz o que entenderes”, acabou por dizer e saiu. Foi directo para o escritório para não se cruzar com ninguém.

Ela vestiu-se desportivamente. Calças de ganga, ténis e camisola simples. Escovou os cabelos ainda húmidos e soltou-os para caírem livremente. Agarrou na espécie de mochila com que andava sempre que ali ia e saiu do quarto. Quando estava prestes a atingir a porta da rua, olhou para a jarra e o seu arranjo floral e recuou. Foi ao escritório. Entrou e ficou parada à porta. Ele olhou-a e ela sentiu nesse olhar uma imensa pena, não por ela, não por ele, mas por as coisas serem o que são. Saiu sem uma palavra.

O carro topo de gama já estava a rolar pela estrada, levantando pó. Enervada, acelerou a fundo, como se quisesse bater em alguma coisa que a impedisse de ir mais além. Estava no limite de uma crise nervosa. A casa branca de muros baixos aproximava-se velozmente. Quando estava a passar por ela, sentiu um embate de uma coisa no vidro da frente. Assustou-se, o carro virou sozinho, derrapou, andou uns metros descontrolado e foi bater, desamparado, com a traseira num pinheiro de beira de estrada. Ficou uns segundos a tentar perceber se estava tudo bem consigo. Sentia uma forte pressão no peito e o cheiro do airbag. De resto, parecia tudo bem. No vidro da frente, a ocupar uma área considerável, estava aquilo que parecia uma bosta de vaca ou animal semelhante. Entretanto, viu alguém a bater-lhe no vidro da janela. Olhou e viu o velho da casa branca de muros baixos. Foi nesse momento que se fez luz. Fora o velho que resolvera, nessa noite, vingar-se das dezenas de vezes em que tivera que levar com poeira. E não fizera a coisa por menos. Bosta de vaca. Saiu do carro furiosa,

“Olhe lá, não viu que podia ter acontecido aqui uma tragédia, seu irresponsável!”. O velho tremia. Não, não tinha pensado que tal coisa pudesse acontecer.

“Alguém podia ter-se aleijado seriamente ou mesmo morrido. Como é que você foi capaz?”. Não, não tinha tido intenção, era só para os aborrecer, para saberem que ele também não gostava de levar com a poeirada de todas as vezes que o carro ali passava.

“Você queria vingar-se matando alguém? É isso?”. Evelise estava fora de si, berrava com o velho que, cada vez mais encolhido, ia negando que tivesse tido intenção de magoar fosse quem fosse.

“Olhe, eu sou um pobre velho que vive aqui sozinho, que passa os dias com as suas plantas, não eu não seria capaz do que me está a acusar. Eu sei, poderia ter havido uma tragédia. Não me ocorreu. Por favor, acredite”. Evelise começou a acalmar-se. Encostou-se ao carro e pôs as mãos na cara. Começou a chorar, primeiro baixinho, depois convulsivamente. O velho ficou surpreendido com a mudança de atitude e não soube logo como reagir. Ainda esboçou um “acredite…” que lhe foi morrendo na garganta.

De repente, o velho sentiu, por aquela mulher jovem e bela, necessidade de a proteger, como se protege um bebé. E foi com ternura que lhe pôs a mão no ombro. “Sabe que uma das vantagens de se ser velho é saber que tudo, ou quase, tem solução. Excepto a morte”. Ela tirou as mãos da cara e observou-o. O que viu foi um velho que parecia querer-lhe todo o bem do mundo. Não sabia porque é que achava isso, mas a verdade é que aceitou o convite para um café lá em casa. No caminho, o velho ia falando. “Sempre vivi rodeado de plantas. A terra foi a minha vida, foi dela que extraí o pão que fui comendo mais a minha mulher que Deus tem. Da terra nasce a vida, menina, é ela que nos dá de comer e olhe que sem comer não fazemos nada. Nada. Tudo vem da terra. É por isso que eu acho que fui abençoado, porque passei a minha vida inteira a sentir essa riqueza nas minhas mãos. Mas, não pense que é fácil. Não. É vida dura. Ao frio e ao vento. Ao calor e ao sol. Sempre temendo uma geada fora de época ou uma chuva que não vem. São coisas simples de vidas simples, menina. Desculpe estar maçá-la com isso”. Ia de braço dado com ela.

“Não, não, não me maça nada”. Evelise ainda estava atordoada, meio sonâmbula deixava-se guiar pelo velho.

Entraram no quintal.

“Vou tirar uma ameixa para si. Vai ver, são uma delícia, uma especialidade”. Largou-lhe o braço e, às escuras, ergueu-se para arrancar um fruto da árvore. “Lembre-me para lhe dar um melão antes de se ir embora. Saíram mais cedo este ano, mas estão bons, vá a gente lá entender isso. Às vezes, vêm na época certa e não prestam para nada e agora…” Retomou a marcha. “Acolá tenho feijão verde e atrás umas abóboras, doces que até parece fruta.” Falava com entusiasmo e pareceu notar isso. “Esta é a minha vida sabe? Nunca quis mais do que isto. Fui feliz aqui com a minha cara-metade e agora estou só com as minhas plantas. Falo-lhes e elas até parecem gostar. Crescem mais depressa. Eu sei que pareço um maluquinho a falar com as plantas, mas acho que até elas precisam de um pouco de atenção.”

Entraram em casa. Pobre, mas de irrepreensível asseio. Evelise não pôde deixar de notar, algo divertida, num jarro com um arranjo floral colorido, sendo que as plantas e flores eram de plástico.

“Sente-se, sente-se que eu vou já buscar um cafezinho. Deixe-me só lavar a fruta.”

Sentada à mesa com uma toalha de plástico às flores, deu uma dentada na ameixa e não pôde deixar de fazer um aceno de aprovação. Era doce. Talvez a melhor ameixa que já comera em toda a sua vida. “Se quiser mais, diga.” Não, não queria mais. Tinha medo de estragar a magia da primeira ameixa. Olhou em redor e viu uma fotografia antiga de uma mulher jovem. Ele reparou no olhar.

“Foram 52 anos de vida em comum. Tivemos as nossas coisas, mas fomos felizes juntos. Era muito bonita. Não tanto como a menina, claro, mas muito bonita. Não acha?”, perguntou apontando para a fotografia.

“Muito bonita”, sussurrou Evelise. “Amavam-se muito?”, perguntou.

O velho ficou pensativo, hesitou. “Ela faz-me muita falta e sei que eu lhe faço falta lá onde ela está agora. É só o que lhe posso dizer”.

O velho saiu para a cozinha e voltou com umas bolachas e uma compota de tomate. “Prove isto, enquanto não vem o café. Garanto-lhe, é uma especialidade. Os tomates daqui quase não precisam de açúcar.” Voltou a sair e ela pegou nas bolachas caseiras, meio grosseiras e cobriu-as de doce. Provou. O velho tinha razão. Era uma especialidade de se lhe tirar o chapéu. Observou a sala onde estava sentada. Tudo parecia tirado de uma fotografia de há 40 anos ilustrando uma decoração má. Contudo, ela sentia-se confortável, havia um não sei quê que dava ao conjunto o calor humano que faltava na maior parte das decorações. Nunca saberia explicar isto. Evelise olhava para o velho com admiração. Ele não tinha sabido responder se amava ou não a mulher porque, para ele, amor era coisa de romances e novelas. Interessava-lhe antes a forma como viveram juntos e os afectos de que sentia falta. Ela chamaria a isso amor e sentiu uma onde de ternura a invadir-lhe o peito. O velho estava a fazê-la reconciliar-se consigo própria.

“Olhe, peço desculpa pelas muitas poeiradas que lhe fizemos”. O velho sorriu. “Vou contar-lhe um segredo: eu até gostava dessa brincadeira, sempre me fazia sair da rotina e fingir que estava zangado. Eu é que peço desculpa, porque a minha brincadeira não teve graça nenhuma, essa é que não teve mesmo graça nenhuma”.

“Até que podia ter graça se fosse o Eduardo a conduzir e não eu, em estado de nervosismo total. Se eu não estivesse nervosa, tinha controlado o carro”.

“Não, menina, eu sei quando faço um disparate. A minha Maria diria das boas se estivesse viva. Ora, cá está o cafezinho e uma fatia de bolo para acompanhar”.

Ela aceitou, reconfortada. O café era de cafeteira tradicional e exalava um cheiro como ela sempre imaginou que cheiraria o café nas casas de antigamente, quando se gritava que havia café fresco. O bolo era mais uma especialidade com que o velho a presenteava, sorrindo. Sentiu-se, de repente, como se o mundo a amasse de novo e não pôde deixar de admirar o velho por isso.

“Está a gostar menina Evelise?” Ela surpreendeu-se quando ouviu o nome. Não se lembrava de o ter dito alguma vez.

“Muito, mas como sabe o meu nome?”

“Ora, isto é uma terra pequena e, depois, tem sido a sua Rosalinda, uma santa, quem me tem valido nestas coisas da lida da casa. Ela é que arruma isto, põe as coisas nos seus lugares, para ficarem bonitas, dá alguma beleza e alegria a esta casa. De outro modo, sem a minha Maria, o que seria de mim? Não reconheceu as bolachas, a compota e o bolo? Foi ela que fez tudo isso. E não imagina o carinho com que fala de si. Você só pode ser boa pessoa e pessoas boas não são muitas. Acredite no que lhe digo”.

 

 

 

 

 

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Conto 4 – Mais um gin, por favor

 

“No conto tudo precisa ser apontado num risco leve e sóbrio: das figuras deve-se ver apenas a linha flagrante e definidora que revela e fixa uma personalidade; dos sentimentos apenas o que caiba num olhar, ou numa dessas palavras que escapa dos lábios e traz todo o ser; da paisagem somente os longes, numa cor unida.

Fonte - Notas Contemporâneas – Autor – Queirós , Eça

 

 

Contornou a rotunda como um condenado contorna a forca. Ia cabisbaixo, como se cada pessoa com que se cruzasse lhe lançasse acusações em forma de olhares. Estava a dar nas vistas. Sabia que estava a dar nas vistas. E torturava-se por causa disso. Queria ser transparente. Sobretudo agora. Detestava ser visto com lágrimas nos olhos. Nos filmes, quando calhava chorar, ficava até ao fim dos genéricos. “Quero saber a data de produçao do filme”, argumentava.

Tinha feito asneira. E daí? Não há um momento em que todos nós fazemos asneira? Sim, mas não aquela asneira. Aquela era demais.

Um carro passou em alta velocidade e apitou. Deu um salto para trás com o susto. O sinal estava vermelho e não dera por isso. Mais uma vez se incomodou por estar a dar nas vistas. Ninguém olhava para ele, mas a sensação que tinha não era essa. Passou por um bar e não resistiu, entrou. Estava vazio. Demorou algum tempo a habituar-se à meia luz. Um casal, cuja intimidade não passaria das oito da noite, altura em que cada um iria ter com os respectivos conjuges, ocupava um canto da sala. Sentou-se ao balcão. Nunca ali tinha entrado, apesar de passar lá todos os dias. Nem lhe tinha passado pela cabeça que o interior fosse assim. Parecia um bar de alterne decadente.

Sorriu para o homem que do outro lado do balcão lhe perguntava “então que é que vai ser?”.  “O que é que recomenda a um homem que está prestes a ter uma corda ao pescoço?”, disse, tentando fazer humor. Foi a vez do outro sorrir. “Talvez uma garrafa do melhor cognac do bar… ora, deixe-me cá ver…”

“Um gin tónico serve”, atalhou, sem deixar de sorrir. “Seja”, respondeu, virando costas para ir buscar a bebida.

Serviu-a e olhou para ele. “Quando tenho um problema assim… grande como parece ser o seu, não costumo beber. Faço outras coisas, não sei se me entende”. Não, não entendia. “Ok! desapareço. Simplesmente desapareço. Dou de frosques!”. Continuava a não entender. “Bom, a questão é: a maior parte dos problemas só o são no presente. Se deixar passar um tempinho, eles desaparecem”. Pausa. Um gole na bebida. Não, continuava a não perceber. ” Oh! Homem, pegue em si, vá a um multibanco, levante dinheiro e vá passar uma temporada, anónimo, num sítio qualquer. Quando voltar, vai ver que o que o afligia, afinal, não era assim tão importante”. Parecia boa ideia. O outro tinha as mãos apoiadas no balcão e olhava-o nos olhos. Bebeu mais um pouco para não enfrentar o olhar. “Não creio que o meu problema se resolva assim”, esclareceu. O outro continuava a fitá-lo. O homem já se arrependera de ter iniciado a conversa. Não lhe apetecia mesmo nada entrar em confidências. O outro insistiu: ” Sabe, o desabafo, às vezes, ajuda”. “Há muitas mulheres a vir aqui?”, desconversou. O outro, tirou as mãos do balcão e endireitou-se, esfregando as mãos no avental. ” Só as do costume” e afastou-se para ir atender outro cliente.

O homem acabou a bebida e esperou para pagar, de carteira na mão. “Então, sexo antes do enforcamento?”, perguntou o outro, olhando-o de soslaio, a caminho da máquina do café. Teve de esperar que o café fosse servido na outra ponta do balcão, antes de dizer fosse o que fosse, mas não esperava que o empregado ficasse na conversa. Sentia-se mal com a carteira na mão. Apetecia-lhe outra bebida. Talvez nesse dia bebesse tudo o que lhe pusessem à frente. Do outro lado, o empregado ria às gargalhadas com o outro cliente. Deu-lhe a sensação de se estarem a rir dele, pois parecia-lhe que o fitavam de forma dissimulada.

Entrou outro casal. Ele era do tipo segurança, com mangas arregaçadas e tatuagem a condizer. Quanto a ela, se fossem verdadeiros os seios que exibia, Deus era com toda a certeza um tipo dado a exageros. Apeteceu-lhe outro gin. Ergueu o copo vazio na direcção do empregado. Solícito, este não se fez rogado, carregou no gin. O homem notou isso, assim que lhe colocou os lábios. Quase que o bebeu de um trago. Olhou em volta. O segurança observava-o e o outro casal só tinha olhos e ouvidos para si próprio. Olhou em frente para a garrafa de gin que o empregado deixara bem visível. Começava a aterrorizá-lo a ideia de que o segurança fosse ter com ele com propostas de uma noite paradisíaca, quando o que estava a viver era um pesadelo. Ergueu o copo vazio mais uma vez e mais uma vez, pareceu-lhe estar a beber gin puro. Desta vez, o empregado parou à sua frente e apoiou outra vez as mãos no balcão. “Pensou no que lhe disse?” O homem sorriu. “Porquê? Já não há gin?” . Sentia-se já ligeiramente embriagado. Tinha de fazer aquilo mais vezes. Começava a descontrair. O empregado apontou para uma bateria de garrafas atrás de si. “Aquilo não é solução, é parte do problema”.

Por essa não esperava. Um empregado de bar com discurso de alcoólicos anónimos. O empregado pareceu ler-lhe os pensamentos e acrescentou: “eu não dou de beber à dor. Prefiro dar de beber à alegria. É uma mania minha.” O homem riu-se. “Muito bem, então pague-se lá da despesa”. Sentia-se outro. Revigorado. Pronto para enfrentar o que de lá viesse. Pagou e saiu sem olhar para os casais que o olhavam com curiosidade.

Caminhou depressa, rumo a casa. Subiu ao 3º andar, meteu a chave à porta e entrou. Parou, hesitante, a ganhar balanço e coragem. “Dulce”, chamou a medo. Silêncio. Entrou. Foi percorrendo as divisões da casa. Da mulher, nem vestígios. Parou a meio da cozinha. Estava um silêncio de casa sem ninguém. Foi assaltado por maus pressentimentos. Entrou no quarto, abriu o guarda fatos e percebeu tudo.

Sentiu apenas um enorme vazio, como um balão que perde o ar em segundos e fica sem préstimo nas mãos de uma criança.

 

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Conto 3 – Talvez, quando não houver futebol…

Nesse dia, saiu mais cedo. Queria fazer uma surpresa ao marido. Há muito que pensava nisso, mas um quotidiano cinzento, sem chama, sem novidades, aparentemente imutável, como a mó de um moinho abandonado, cujo movimento é só memória, sem futuro, desencorajava-a. Foi buscar o filho à escola mais cedo e deixou-o na avó. Queria a noite só para si.

Andou às voltas com os tachos e panelas a preparar o bacalhau com natas que o marido apreciava. Ele preferia bacalhau com grão, mas ela achou que as natas tinham outra classe e o grão era pesado à noite. Esmerou-se.  Com a travessa no forno, foi tomar um banho. Comprara o gel dos primeiros anos de casados. Usou-o generosamente para guardar no corpo o cheiro. Usou o secador, abandonado há tempos, para conseguir as ondulações de cabelo que a vida apressada mitigara e quase fizera desaparecer. Sopesou os seios nas mãos fortes e calejadas de mulher de trabalho e considerou que, apesar dos anos e do filho, eram ainda bonitos e equilibrados. Sim, estava mais forte, a barriga era dispensável, as ancas tinham crescido e a celulite ganhara batalhas mas não a guerra. Nunca fora bonita, sabia-o bem, as rugas não a favoreciam, mas mantinha um sorriso agradável. Era uma mulher de trabalho, talvez ligeiramente grosseira no conjunto, mas esse era um pormenor de que não tinha consciência. “Trabalhava a dias” num escritório, da parte da manhã, logo cedo, antes de os funcionários entrarem ao serviço e, depois, passava por duas casas de famílias ricas e numerosas, de quatro e cinco filhos. Volta e meia pensava no que faria se ganhasse só metade do que aquela gente gastava em colégios particulares. Ia fazer um cruzeiro. Sonhava com o glamour dos cruzeiros, aquelas cidades flutuantes, com gente fina a acenar, para os que ficavam, com lenços de todas as cores. Pelo menos, era o que imaginava.

Antes de se maquilhar, um luxo a que raramente se dava, foi ver o bacalhau. Baixou a temperatura do forno. Olhou para o relógio e calculou que havia mais que tempo. Começou a pôr a mesa. A toalha foi bordada à mão por uma bisavó do marido que ela não conhecera. Foi buscar os pratos do serviço oferecido no casamento. Eram pratos brancos, aparentemente normais mas, por baixo, a inscrição Vista Alegre orgulhava-a. Foi ao cimo do móvel da cozinha retirar o serviço de talheres para as ocasiões especiais e notou-lhes já alguma falta de brilho. Ainda hesitou, mas lá colocou os copos de pé alto, com os guardanapos artisticamente dobrados lá dentro. Olhou para o efeito e gostou do que viu. Há muito que não recebiam visitas lá em casa e, por isso, há muito que a mesa não tinha aquele ar “finesse”, como ela gostava de dizer. Ponderou se havia de colocar uma vela ou não. Sempre dava um ar romântico ao jantar, mas decidiu que não. Nada de exageros.

Estavam casados há 10 anos. Conheceram-se num baile dos bombeiros lá da terra. Ou melhor, da terra dela. Ele tinha lá ido em serviço pôr uns postes de electricidade e ficara lá o fim-de-semana todo. Foi o suficiente. Namoro curto e só aos fins de semana, já que ele andava de terra em terra, a subir e a descer escadotes. Vira naquele corpo forte, de músculos tonificados e juventude atrevida, o príncipe que a levaria dali. E levou. Assentaram casa nos arredores de Lisboa. Um T2 muito em conta, afirmara ele, em zona com muitas potencialidades de crescimento. E cresceu, de facto. Cogumelos anónimos ocuparam os espaços vazios, onde antes houve gente que sonhou jardins e outros equipamentos sociais.

Ela sonhara outra coisa, mas os sonhos não são a vida real e isso ela sabia-o. Sempre que podia, ia à terra, mas o seu homem cada vez mais se deixava ficar agarrado ao sofá, numa inércia comum a muitos dos seus conhecidos. A paixão inicial, se alguma vez a houve, esfumara-se naquele subúrbio sombrio e numa vida rotineira de cansaços que não se sabia se eram do trabalho duro e desgastante, se de outra coisa mais interior, vinda de dentro, de uma insatisfação de origem desconhecida. A ternura desaparecera. Inicialmente, era coisa desajeitada, tímida, quase com medo da rejeição, mas existira, ela não sonhara. Houve gestos e beijos, mãos que acariciam, palavras ditas e outras, muitas, a maioria, subentendidas. Sim, ela sabia que havia lá dentro, guardadas no peito do seu homem, muita ternura para sair, muito amor para dar. Por isso apostara naquela noite.

Culpava-se por algum desmazelo em que se deixara cair. Uma mulher não pode descuidar-se. Tem de haver alguma coisa capaz de seduzir um homem. Este tem de se sentir especial porque o esforço para a beleza é feito para si. Não pode ser de outra maneira. Lera isso numa revista e concordava.

Faltava um quarto para as oito. Ele estava quase a chegar. Desligou o forno e foi à casa de banho retocar a maquilhagem e colocar uma gota de perfume e esperou. Quando sentiu a chave entrar na fechadura, o coração começou a bater mais aceleradamente. Plantou-se à entrada e, quando o marido surgiu na porta aberta, falhou o abraço porque este virou costas para fechar a porta. Ainda deu para um leve beijo de boas vindas. Meio distraído, o homem perguntou o que era o jantar, enquanto despia o casaco. À resposta, respondeu com um “boa”, enquanto procurava o comando da televisão. Ainda não olhara para ela de forma demorada, nem reparara nas mudanças. Foi só quando a televisão começou a debitar decibéis que ele se virou e viu a mesa posta com brio. Assobiou baixinho, foi até à cozinha, fez o gesto de quem aprecia o cheiro a comida e informou que ia comer em frente à televisão. O jogo do Benfica estava a começar. Nem reparou na frustração que ia na cara da mulher. Já virara costas, quando se voltou para lhe dizer que ela tinha algo de diferente naquele dia, mas não sabia o que era. A verdade, porém, é que não perdeu muito tempo com isso.

Já sentado frente à televisão, recebeu o prato com o bacalhau com natas e começou a comer com gosto.

A mulher olhou para ele, olhou para a mesa, abanou os ombros e pensou: talvez num dia em que não haja futebol.

 

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Conto 2 – Outono dos Afectos

“O historiador e o poeta não se distinguem um do outro pelo facto de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso. Diferem entre si, porque um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido.

Aristóteles

 

O homem contornou a cama, aproximou-se da mesinha de cabeceira, tirou a carteira e contou cinco notas. Depositou-as ao pé do candeeiro e olhou para a mulher deitada. Esta, imóvel, fixava um ponto para lá do tecto, como se desejasse não ver. O homem sorriu e sacou de mais cinco notas e deixou-as ficar em cima das outras. Foi um gesto onde se observou uma quase imperceptível nota de desprezo. Com o mesmo ar de arrogância sorridente, apertou as bochechas da mulher com a mão esquerda, no que pretendia ser um gesto de ternura, mas que era outra coisa. A mulher sacudiu-o com brusquidão. O homem virou costas e saiu.

A mulher continuou deitada de barriga para cima fixando coisa nenhuma. Sentia-se dorida nas coxas e genitais e a face esquerda ainda lhe parecia arder. A bofetada fizera-a cair de costas, mais pela surpresa que pela violência.

Primeira regra: nunca ter relações afectivas com os clientes. Esquecera-se disso. Segunda regra: na rua, os clientes são sempre perfeitos desconhecidos. Também se esquecera disso. Por um momento, achou que as histórias da gata borralheira eram possíveis. Fora enganada e abusada. O resultado estava ali. Uma face vermelha e a raiva de não ter percebido isso logo de início. Passou as mãos pelas coxas. A violência não a incomodava já.

Levantou-se pesadamente e viu o seu corpo nu no espelho estrategicamente colocado aos pés da cama. Qualquer dia, aquele corpo envelheceria irremediavelmente. A princípio, ainda sentia alguma coisa quando um homem saía de dentro de si como que pacificado consigo mesmo e era capaz, nessa altura, de um gesto de ternura. Achava então que tinha conseguido uma vitória no campo difícil dos afectos. E nem o gesto já desprendido com que se despediam abalava essa sua convicção.

Mas, ultimamente, em cada cliente que saía porta fora sentia morrer em si mais um pedaço da sua capacidade de dar e receber afectos.

Não sabia nem nunca soube o que queria exactamente da vida. Esta arrastara-a para ali como a podia ter arrastado para outra coisa qualquer. Olhou para o espelho e levantou-se. Abriu a gaveta da mesinha de cabeceira e tirou uma embalagem de comprimidos. Fora a “madame” que os recomendara. “Ansiolíticos”, dissera ela. Com a caixa na mão foi para a casa de banho. Olhou para a caixa e para a sua cara reflectida no espelho. Já não se via a marca vermelha da bofetada, mas tinha a pintura esborratada, como um clown em fim de festa.

Estava decidido. Primeiro um banho. Pôs a água a correr, temperou-a e meteu-se debaixo do chuveiro. Ficou muito tempo debaixo da água a correr, de olhos fechados. Nem soube quanto. Depois, esfregou-se como se tivesse necessidade de tirar óleo velho do corpo. Esfregou-se até a pele ficar vermelha e lhe doer. Parou. Secou-se. Pegou na embalagem de comprimidos e hesitou. Acabou por pô-la de lado. Secou o cabelo e penteou-se. Pôs perfume, maquilhou-se pesadamente, vestiu uma lingerie transparente de gosto duvidoso e, com os comprimidos na mão, foi até ao quarto. Deitou-se de barriga para cima, pegou na embalagem, fez saltar um comprimido, ficou, por momentos, pensativa e engoliu-o, mesmo sem água. Olhou para o relógio, ainda com a caixa na mão. Tinha meia hora antes do próximo cliente. Guardou a caixa e esperou deitada com o olhar perdido algures no tecto do quarto mal mobilado.

 

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Conto 1 – O BARBEIRO

“Contar histórias é uma das mais belas ocupações humanas: e a Grécia assim o compreendeu, divinizando Homero que não era mais que um sublime contador de contos da carochinha. Todas as outras ocupações humanas tendem mais ou menos a explorar o homem; só essa de contar histórias se dedica amoravelmente a entretê-lo, o que tantas vezes equivale a consolá-lo. Infelizmente, quase sempre, os contistas estragam os seus contos por os encherem de literatura, de tanta literatura que nos sufoca a vida!”

 Fonte: “Correspondência”; Autor: Queiroz , Eça

 

 

O BARBEIRO

Estava um sol abrasador. A rua deserta emanava ondas de calor que não deixavam ver com nitidez as lojas do fundo. Na ombreira da porta, o homem hesitou. Do lado esquerdo, três portas adiante, ficava a barbearia. Em frente, do outro lado, a tasca apinhava-se de gente. Apetecia-lhe uma bebida fresca. Limpou o suor da testa. Tirou um lenço de papel e limpou o pescoço húmido. Sentiu os pelos da barba a despontar, hirsutos. Guardou o lenço e puxou de um cigarro. Esperava, obviamente, não se cruzar ali com ninguém. Deu uma forte baforada e deixou que a nuvem de fumo o envolvesse.

Perdera o emprego havia já dois meses e ainda não se habituara a estar ali àquela hora. A princípio ficara surpreendido com a quantidade de gente ociosa. Agora, aceitava com placidez, os olhares dos outros, como se ele fosse um estranho no lugar. Afinal, vivia ali desde sempre, pelo menos desde que começara a poder sustentar-se a si mesmo. Antes de perder o emprego, a falta de família pesava-lhe como um fardo. Agora nem pensava nisso. Sorriu a este pensamento, mas logo voltou à sua expressão inicial que era nenhuma. Sentia-se observado. Uma incomodidade assaltou-o. Desempregado a fumar à porta de casa encostado ao muro parecia-lhe um cliché demasiado óbvio.

Esmagou o cigarro com o pé e encaminhou-se para a barbearia. Ia dar-se  à extravagância de pagar para que lhe fizessem a barba. Nunca antes o fizera. Havia muitas coisas que ainda não tinha feito.

O dono da barbearia e seu único funcionário estava sentado a ler uma revista que já devia ter pelo menos dois anos. A capa era só uma recordação longínqua. Cumprimentou-o. Apontou-lhe a cadeira e perguntou como queria o cabelo. Por um momento, um breve instante, o seu rosto crispou-se. Só barba? Afiou a lâmina, que abriu com um gesto brusco, como se de um aprendiz de delinquente se tratasse. Preparou a espuma num recipiente de metal. O silêncio era total, se exceptuarmos o sopro do ar condicionado. Um luxo para atrair a clientela que nunca apareceu.

Baixou a cadeira do seu único cliente e este relaxou como numa espreguiçadeira. Estava disposto a gozar bem o que ia pagar pela barba. Sentia isso como uma mordomia a que tinha direito. Não fossem os poucos cabelos brancos e ninguém lhe dava os 40 anos que tinha. Um quarentão celibatário, sem amigos. Só se tinha apercebido dessa ausência de amigos depois do desemprego. Pensava poder manter os amigos do trabalho, mas estes tinham as suas vidas e vidas que não se cruzam são amizades que se perdem.

Procurava qualquer coisa para dizer àquele homem a quem ia entregar o pescoço à passagem de uma navalha afiada, mas não sabia o quê. Manteve-se calado. Esperava que o barbeiro, fazendo jus à fama da profissão, começasse a falar, mas este também nada dizia.

Sentiu a cara massajada e foi percorrido por uma vertigem de prazer. Fechou os olhos. Ainda bem que tinha trocado a sede pela barbearia. Depois, foi o deslizar da lâmina sobre a pele. Nunca tinha imaginado que poderia ser tão suave. Abriu os olhos e viu os gestos profissionais do barbeiro, quase ritualizados. Voltou a fechar os olhos. Há muito que não era percorrido por esta sensação de prazer físico. Há quanto tempo não era tocado por alguém? Sentiu um estremecimento. Estava a sentir prazer por causa do contacto físico de um homem, quase com idade para ser seu pai? Abriu os olhos e viu o outro a sorrir-lhe. Confuso, esteve quase a levantar-se, mas antes que esboçasse o gesto, o barbeiro colocou-lhe a mão no peito e empurrou-o suavemente para a cadeira. Depois, limpou-lhe os restos do creme com um pano embebido em água morna, devagar, como se apreciasse o momento. Abandonou-se. Fechou os olhos e deixou-se estar. Quase foi acordado pela colocação do after shave, às palmadinhas. Sentiu-se refrescar. Estava revigorado. Parecia outro. De certa forma, sentiu-se aliviado por ter acabado. Não queria que o outro soubesse o quanto lhe deu prazer ter sido tocado pelas suas mãos. Pagou e nunca mais voltou a entrar na barbearia.

Mário Rui de Melo

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Liliana Lourenço, a ilustradora

Pois, está assinada. Liliana Lourenço é a autora da ilustração do cabeçalho. Recuperei-a para este blog porque a Liliana é boa, mesmo muito boa ilustradora e vocês deviam conhecê-la. Este é um blog de histórias, contos curtos, ficções e cada ilustração da Liliana é uma história por si só. Tomara que as outras histórias estejam ao nível das histórias que ela conta. Sem palavras, só com o traço e a cor. Da Liliana ficamos à espera de mais histórias. Porque são boas. É tão simples quanto isso.

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